França se prepara para receber papa Leão XIV com fervor inesperado
O papa Leão XIV iniciará na sexta-feira (25) uma visita de quatro dias à França, onde milhares de pessoas devem acompanhar os passos do pontífice durante uma viagem que não está isenta de polêmicas, como os casos de abuso sexual na Igreja Católica.
O líder espiritual dos 1,4 bilhão de católicos do mundo deve abordar no país temas como a inteligência artificial (IA), a crise migratória, a defesa da vida e a paz na Europa, bem como apoiar uma Igreja que busca renovação na França.
"É bom que ele venha, que mostre que se interessa pela Igreja na França", comemora Julie, uma jovem de 24 anos, em frente à Catedral de Notre-Dame, que o compara a seu antecessor, Francisco.
Em seus 12 anos de pontificado (2013-2025), o papa argentino visitou o país três vezes, mas nunca em viagem oficial. Ele chegou a recusar comparecer à reabertura de Notre-Dame no fim de 2024.
Leão XIV, que realiza assim a primeira visita de Estado de um pontífice desde Bento XVI em 2008, participará na sexta-feira de uma oração junto ao clero neste monumento restaurado após um incêndio devastador em 2019.
No mesmo dia, está prevista uma vigília diante de 80.000 jovens no Stade de France e uma missa para 600.000 pessoas acontecerá no sábado na avenida Champs-Élysées, em Paris.
As autoridades, que esperam um milhão de pessoas na etapa parisiense, mobilizarão até 14.000 agentes nas ruas da capital.
O interesse pela fé católica é relativo na França, um país laico. Segundo uma pesquisa pública de dezembro, os casamentos na Igreja caíram de 122.000 em 2000 para 40.000 em 2023.
- IA e mensagem de paz -
A imagem da Igreja foi prejudicada pelas revelações de agressões sexuais. Em 2021, um relatório encomendado por bispos e freiras estimou até 330.000 vítimas menores de idade desde 1950.
Esta questão vai pairar sobre a estada de Leão XIV na noite de sábado e no domingo em Lourdes, segundo maior local de devoção católica depois de Roma, onde ele se reunirá com sete vítimas, mas com nenhum coletivo.
"Um encontro fracassado", lamentou na terça-feira Marie Derain de Vaucresson, presidente da instância criada em 2021 para a reparação dos abusos contra menores na Igreja.
"O que o senhor está fazendo para romper os ecossistemas de silêncio que se instauram em todos os níveis?", indaga Pierre F., um homem de 36 anos abusado por um padre na infância.
Durante a visita do papa, a basílica cobrirá todos os mosaicos do padre esloveno Marko Rupnik, acusado de agressões sexuais.
A viagem começará na sexta-feira com um encontro com o presidente francês, Emmanuel Macron, em Paris. Depois, ele visitará a Unesco para falar sobre IA, o que, segundo seu diretor-geral Khaled El-Enany à AFP, já representa uma "mensagem política em defesa do multilateralismo".
A sete meses da eleição presidencial na França e em um momento em que os partidos de extrema direita avançam na Europa, Leão XIV visitará no sábado a Casa Bakhita, que oferece apoio a migrantes no norte de Paris.
A viagem terminará na segunda-feira na cidade de Metz, onde fará um discurso sobre a Europa e a paz, em um contexto de deterioração das relações com os Estados Unidos e de guerra na Ucrânia. Macron convidou os demais chefes de Estado da União Europeia.
A inclusão do direito ao aborto na Constituição francesa em 2023 e a adoção, em julho, da lei da eutanásia também podem ser abordados sob o slogan "Para que cada um tenha vida".
burs-tjc/dbh/yr/fp
O.Bruneau--PS