Mercados de previsão, uma frente de desinformação nas eleições legislativas dos EUA
As eleições legislativas dos Estados Unidos ocorrem sob um novo e polêmico indicador em tempo real: os mercados de previsão.
Estes espaços permitem investir dinheiro na probabilidade de que um evento ocorra. No entanto, especialistas alertam que podem confundir os eleitores e gerar desinformação, sobretudo por que, em alguns casos, atores políticos tentam influenciar a probabilidade atribuída por esses mercados.
Além disso, alguns eleitores interpretam essas probabilidades como previsões praticamente certas e, quando o resultado não coincide, denunciam fraude.
As plataformas Polymarket e Kalshi permitem que usuários comprem e vendam contratos relacionados às eleições, embora a maioria dos americanos se oponha a apostas relacionadas a temas eleitorais, segundo pesquisas.
Essas empresas estão agora associadas a importantes organizações de notícias. "Elas se tornaram cada vez mais parte de como os americanos entendem as eleições", diz Davina Hurt, diretora de ética governamental do Centro Markkula de Ética Aplicada da Universidade de Santa Clara.
"Estamos chegando a um ponto em que as expectativas dos mercados financeiros têm mais peso na mente do público do que os votos", acrescenta.
- Probabilidade não é promessa -
Os mercados de previsão têm se tornado cada vez mais populares, embora haja disputas judiciais sobre se deveriam ser regulados como mercados de commodities ou regidos pelas leis de apostas.
A Kalshi afirma que seus mercados oferecem dados diferentes daqueles fornecidos pelas pesquisas tradicionais e alerta que as probabilidades que apresenta não garantem que um evento acabe acontecendo.
A empresa também ressalta que as tentativas de manipular as probabilidades costumam ser neutralizadas por outros participantes do mercado.
"A Kalshi deve ser vista como um complemento às pesquisas tradicionais", disse à AFP a diretora de comunicação da plataforma, Elisabeth Diana.
Apesar disso, há preocupação de que esses mercados sejam mal interpretados, sobretudo porque a Polymarket e a Kalshi divulgam projeções sobre resultados eleitorais nas redes sociais.
Uma alta probabilidade "não é uma promessa (...) Quando uma previsão acaba se revelando errada, isso não significa que a escolha tenha sido equivocada. No entanto, as pessoas vão interpretar dessa maneira", diz Hurt.
- Acusações em Los Angeles -
Quando o aspirante republicano Spencer Pratt perdeu as primárias para a Prefeitura de Los Angeles em junho, influenciadores de direita denunciaram fraude. Eles indicaram que os mercados de previsão mostravam que Pratt tinha chances de avançar para a eleição geral.
Algumas publicações de desinformação no X traziam a legenda "parceria paga", o que gerou críticas e obrigou a Polymarket e a Kalshi a tomarem medidas.
"A primária de junho mostrou como as expectativas sobre uma eleição podem ser confundidas com os resultados", disse Michael Sánchez, porta-voz do Escritório de Registro Eleitoral do Condado de Los Angeles.
Em um documento compartilhado com exclusividade com a AFP, a Kalshi disse a seus parceiros que "não devem questionar a integridade nem a precisão de nenhum resultado oficial da contagem de votos, decisão judicial ou outra determinação oficial ou formal ligada ao processo eleitoral".
Acrescentou, ainda, que encerrará sua parceria com aqueles que publicarem, sem evidências, "que um resultado eleitoral foi manipulado, fraudado ou comprometido".
A Polymarket não respondeu aos pedidos de comentário.
- Preocupação -
O administrador estadual das eleições de Maryland, Jared DeMarinis, pediu que se avalie se as apostas eleitorais são compatíveis com a legislação estadual.
O funcionário disse à AFP que proibiu os mesários de fazerem apostas relacionadas às eleições.
"Agora simplesmente se jogou mais gasolina ao envolver dinheiro nisso. O que menos se quer é que se coloque em dúvida a legitimidade do resultado", afirmou.
E.Robert--PS